OSCAR WILDE NO TEMPO DE COMPREENDER O FANTASMA
Epistola in Carcere et Vinculis: De Profundis
Bárbara Maria Brandão
Guatimosim
“(...) como conseqüência de ter-me deixado colher no laço (...) me encontro
na mais espessa lama, situado entre os célebres Gilles de Retz e Marquês de Sade”.
Oscar Wilde
“Das profundezas do abismo, clamo a
vós, Senhor! Senhor, escutai a minha voz.
Estejam vossos ouvidos atentos à
voz de minha súplica”.
De Profundis, Salmo 129
Aos quarenta e um anos, já tendo
escrito praticamente toda a sua obra, composta de contos,ensaios, poesias,
peças teatrais e um romance, o escritor irlandês Oscar Wilde, inglês por
adoção, se vê comprometido em sua vida pessoal e artística pelo encontro do que
foi para ele uma “funesta amizade”[1].
Em Londres, já casado e com dois filhos, mantinha relações com outros rapazes,
que acolhia generosamente em um “banquete de panteras”[2]. Eram em sua maioria prostitutos,
que a era vitoriana com suas leis que condenavam o homossexualismo, tornara
chantagistas
Douglas não era muito discreto em sua amizade
com Oscar e com isto provocava Queensberry que passou a insultar o escritor já
famoso acusando-o de sodomita e corruptor de jovens, ou mais precisamente, do
filho[8].
Incitado em extremo por Lord Alfred, Wilde resolveu comprar a disputa entre
filho e pai processando o último por difamação[9].
Oscar, que se dizia filho típico de seu século, não contou com a violência da
hipocrisia da sociedade inglesa que tanto criticava, mas da qual também
usufruía. Wilde com sua vida dupla, convencional e clandestina, recorreu à lei
moral e recebeu sua resposta invertida[10].
O pai acusado em nome da moral tornou-se acusador do imoral, e por meio de
estratagemas escusos conseguiu condenar Wilde à pena máxima de dois anos na
prisão com trabalhos forçados, depois de um longo processo do qual se recusou a
fugir por um misto de honra, orgulho, prepotência, impotência e sacrifício[11].
Wilde passou em sua carreira rapidamente da
fama incontestável à infâmia e falência absolutas. Na prisão sofria
horrivelmente, com direito a raras visitas e restritos contatos por carta com
poucos amigos. Mas de A. Douglas só lhe veio o silêncio e notícias que lhe
indignavam. Foi nos últimos meses do cumprimento de sua pena na prisão de
Reading, já com acesso a alguns livros, papel e tinta antes negados que, diante
do silêncio do amante e no isolamento, redigiu talvez a maior carta de amor
conhecida na literatura, destinada ao
“Querido Bosie”, A.Douglas. A Epistola, segundo Wilde, não defende sua
conduta: explica-a. [12]
Mas não só: lamenta-se, acusa, interpreta, busca redenção no sofrimento, na
dor, no amor, no perdão, na humildade, em Cristo e esperança na “Vita Nuova” que se prescreve, fazendo o
levantamento das causas e da extensão de sua ruína. Insistia em dizer que a
prisão o havia modificado profundamente “porque lá encontrei minha alma” [13].
Posto em liberdade tentou
ingressar em um monastério de jesuítas para um retiro, mas isso lhe foi
recusado. Talvez recluso, se sentisse mais liberto. Pois sua libertação parece
tê-lo deixado ainda mais prisioneiro. Divorciado de sua mulher Constance Lloyd
e proibido de ver os dois filhos retomou sua vida com Douglas, seu “porto
seguro” [14], e foi por ele novamente
abandonado reencenando a mesma situação anterior, já que não havia dinheiro que
os sustentassem[15]. Sua única obra posterior ao tempo
do cárcere foi a “Balada da Prisão de Reading”, e alguns artigos jornalísticos
criticando o sistema penitenciário britânico que, na época, praticamente se
igualava à pena de morte. Ainda lhe
vinham boas idéias, mas não queria, não podia mais escrever[16].
A condição de viúvo reservou-lhe
uma pensão modesta, sempre insuficiente para seus gastos [17]. Passou o final da vida, bebendo, esmolando,
divertindo-se com rapazes, e em conversações com alguns poucos amigos,
admiradores e apiedados que o sustentavam em todos os sentidos. Mas sofria com a indiferença e desprezo da
maioria e de muitos que sua generosidade havia regalado nos tempos de glória e
fortuna. Com isso, passou a evitar
também o convívio, mesmo dos que lhe eram simpáticos. Morreu em 1900, na miséria,
cercado dos contados amigos mais chegados e de Robert Ross que nunca o
abandonou e que foi seu executor literário. Quando saiu da prisão, a Epistola,
ou “De profundis” como Ross a intitulou, foi confiada a este com a recomendação
de uma cópia a Douglas. Não se sabe se
este a leu ou não na ocasião; de qualquer maneira, isto provavelmente não faria
diferença[18]. Antes de morrer, Wilde
manifestou o desejo de que a Epistola
fosse um dia publicada [19]. Uma primeira versão parcial da carta veio a
público e, tempos depois, foi integralmente publicada.
É desta carta impressionante,
dramática, desigual, contraditória, entremeada de reflexões filosóficas,
religiosas e artísticas, atormentada
como o complexo remetente, que faço uma leitura a partir da escuta psicanalítica,
acompanhando, no testemunho que traz, algumas de suas linhas temáticas, com
seus circuitos, suas repetições e seu desfecho. As muitas citações selecionadas
e numeradas no corpo e no final deste texto, extratos da voz escrita de Wilde,
têm o objetivo de fazer a carta falar por si mesma, dando suporte vivo ao que
vou pontuando.
A “Epistola in Cárcere et
Vinculis”, como o autor a nomeou, desde seu início, não promete uma agradável
leitura. É uma “carta terrível”. Nesta missiva
Wilde recompõe um pouco de sua vida de glória e vai acompanhando cirurgicamente[20]
todos os passos, por vezes em detalhes microscópicos, tanto factuais como
subjetivos, que o levaram à ruína. Não poupa ninguém, a começar por Douglas[21]
e por ele mesmo[22]. Percebe que o processo judicial
que o levou a perder tudo: família, fortuna, amigos, reconhecimento social,
saúde, sua arte, seu nome[23],
enfim, qualquer possibilidade de futuro[24],
não foi o causador de sua tragédia. Apesar de culpar o Destino, os Deuses e Douglas,
é perfeitamente lúcido sobre o quanto escolheu a fatalidade[25].
Reconhece a evidência do quanto algumas de suas obras anteciparam e retrataram
seu percurso[26]. Viu claramente quando e
como poderia ter evitado o pior e como se deixou enredar nas armadilhas da
comédia[27],
da superficialidade e frivolidade[28]; teve consciência de como servia
como instrumento de gozo aos apetites narcísicos insaciáveis que o rodeavam[29].
Descobre a certeza[30]
na dor recorrente, como mantenedora da identidade[31];
mas alertado está para não fazer da dor, um bem[32].
Recusa terminantemente o ódio e o ressentimento como destilações da amargura[33],
pois se dá conta de que foi nas malhas do ódio que se deixou apanhar[34].
Afirma, não a revolta, mas o segredo da humildade, que “consiste em aceitar
todas as experiências”, como a única revelação digna a se extrair da
experiência de dor. Preconizava o amor
como o único dom que torna possível a compreensão e o perdão. Descobre
assim, na Vita Nuova[35] de Dante, não um corte total com o
passado, mas a feliz vitalidade no desprendimento[36],
para alcançar a última realização da vida artística.
Não a religião, mas a vida de
Cristo emerge, em certo ponto no texto, análoga à verdadeira vida do artista. A
partir disso, Cristo é figurado de maneira nada ortodoxa, como o maior poeta
romântico do esteticismo, ao qual Wilde se identifica idealmente, um tanto à
sua imagem e semelhança[37]. Defende que os rituais litúrgicos
deveriam ser uma espécie de celebração teatral.Cristo é então protagonista, não
do altruísmo, mas do supremo desapego individualista, porque visa à alma do
homem[38];
e a de uns vale como a de outros, porque são diferentes[39].
Defendendo a errância[40],
despreza os homens para quem a vida é uma sagaz especulação, um cálculo dos
caminhos e meios, e que, onde quer que
vão, vestem a máscara do que programaram; e o castigo é que terão de usá-las.
Wilde entende que Cristo amava os pecadores, próximos da perfeição, porque só
estes podiam se arrepender[41].
Compreende que o desejo primordial de Cristo não era reformar os homens,
tampouco aliviar o sofrimento[42].
Sem acreditar em reformas morais ou teológicas, os passos da paixão de Wilde,
dá-lhe o direito adquirido de compartilhar da dor[43], dor que aqui, infiel a
Dante, toma como um belo bem[44]
em uma convicta lealdade catexial. Quer
que a dor se introduza em sua obra a advir, não imitando a realidade, nem da
forma vulgar que experimentou[45],
mas com uma certa qualidade estética[46].
Porém, este projeto não foi realizado.
Wilde prossegue na Epistola
destrinchando suas ilusões, máscaras[47]
e equívocos, o principal deles indubitavelmente, o deixar-se levar pelo gozo,
com a parceria perfeita para isto que encontrou em A. Douglas[48] e seus familiares[49].
Com tudo isso, sua tragédia não é grega. O amor que se queria acreditar e se
mostrar grego, exibiu-se como uma realização perversa do fantasma, revelando
seu rosto real na ruína que trouxe[50].
Wilde, o helenista, percebe que estava dominado, não apenas por um rapaz
voluntarioso, mas por um estilo moderno[51],
por um mestre perverso; aquele que exige o gozo e o consumo rápido, que,
independente da época, é sempre “moderno”[52]
- por sobrepor o gozo ao desejo, este sempre historicamente causado, por sua
inconseqüência, sua indiferença ao outro, e destruição dos laços sociais – Esta
máquina de gozar que assola Wilde e que este lastima reiteradamente em Douglas
é, por definição, absolutamente destituída de imaginação e carece por completo
de poesia[53]. O escritor Wilde
expressa de forma precisa e repetidamente que, não é esse, mas um Outro gozo
que atravessa sua arte.
Tudo o que se seguiu na vida de
Wilde sobrevém de uma fixação da qual não consegue, e em grande medida não
quer, decididamente, livrar-se. Não só retomou seu vínculo com Douglas depois
da prisão como a própria carta vaticinava[54],
mas talvez por saber mais ainda do gozo a partir da Epistola, mergulhou fundo
no sorvedouro fantasmático buscando sorver a Vida até a sua última gota [55].
Ao longo de toda a carta, onde
lemos o discurso histérico se exercendo em plena súplica, produzindo saber,
fazendo ciência, acompanhamos também a gravidade da sedução do fantasma que se
faz, ao final, inexorável, obstruindo a saída.
Certamente a bela imagem de Douglas era só uma tela imantada, eleita
dentre todas, que encobria o fantasma masoquista e mortífero[56]. Pois o que a pintura feita por
Wilde espelha e retrata[57]
era o que Douglas implicava enquanto figura obscena e imperativa do gozo que não quer saber do
impossível; ou sabe, mas mesmo assim... Não é surpresa então que ao pintar a
imagem de Douglas encontre as cores lúgubres da mesma figura em si mesmo. Eis
como Wilde fabula o encontro com sua alma na prisão.
“Um homem deparou com um ser, que dele escondeu o rosto, e disse: ‘Vou
obrigá-lo a mostrar seu rosto’. O ser fugiu. Ao ir em seu encalço, perdeu-o de
vista, mas sua vida continuou. Por fim seu prazer levou-o a uma sala comprida,
onde mesas tinham sido postas para muitas pessoas, e, em um espelho, viu o ser
que perseguira na juventude. ‘Desta vez você não haverá de me escapar’, disse,
mas o ser não só não tentou fugir como também não escondeu o rosto. ‘Olhe’,
gritou o ser, ‘e agora saberá que não mais poderemos nos ver, pois este é o
rosto de sua própria alma, e ela é horrível’”. (Wilde, citado por Ellmann, R..,
p 487.)
Assim como o amado, não foi o
homossexualismo que condenou Wilde e do qual ele nunca abriu mão, se lamentou[58]
ou questionou.[59] Mesmo porque o
homossexualismo já fervilhava na casta e sóbria Inglaterra de então. Era tolerado,
conquanto não se o revelasse. Não foi o sexo, mas um amor devastador que o
aprisionou. Este “Amor que não ousa dizer seu nome” , como Douglas o chama em
seu poema “Dois Amores”, esconde menos a opção sexual amorosa que uma outra
terrível paixão oculta: aquela que leva à morte. E Wilde responde repetindo em eco nos ditos e
escritos últimos: “Porque cada um de nós mata o que ama, mas nem todos hão de
morrer” [60] (53).
É provavelmente com a lúcida visão
desse cenário trágico que Wilde, na carta, se identifica ao débil Hamlet de
Shakespeare, ao sentir a missão que lhe vem
do fantasma como um fardo insuportável para ele: um poeta, um sonhador
que se arrasta para a ação, sem saber o que fazer (54). Compara Douglas aos
companheiros de Hamlet, os imortais tartufianos Rosencratz e Guildenstern (55) e à doce Ofélia, que roçam o segredo trágico do
príncipe, mas dele nada sabem, e nada adianta revelar-lhes aquilo que não podem
compreender (56).
Todavia a carta se mantém do
início ao fim, mesclando variações temáticas, como uma grande súplica sinfônica
ao Amor; Amor que, com toda a estupidez, sem nada compreender, sabe do gozo:
“por que não me escreveste?”, “por que não me escreves?” Pergunta que o autor,
por ele mesmo, vai respondendo insistentemente, explorando de modo desesperado
os incansáveis matizes de uma “compreensão”, tão incessante, que se torna, no
texto, inumerável. Uma compreensão que se diz e se revela por demais
“psicológica” para o que é preciso “aprender” e “ensinar”[61]
a Douglas[62]; isto é: o impossível,
dom da castração[63]. Evidentemente, o fato de
insistir por escrito nessa compreensão, em nada mudou a vida do escritor, nem
lhe reservou um futuro diverso[64].
Wilde passou seus últimos anos de
Vida, abandonando-se a ela [65],
fazendo comédia da tragédia humana,
navegando entre uma e outra, sedando-se com álcool e humor quando a dor de sua
desgraça mostrava suas garras [66].
Sob o nome de Sebastian Melmoth, que adotou ao sair da prisão, passou seus
últimos meses exilado em Paris; mas, como disfarce, era completamente inútil;
Wilde com sua estatura gigantesca dizia ser tão conhecido como a torre Eiffel.
Teve como companheiro inseparável seu estilo inconfundível, uma escritura
composta de ironia, humor e poesia que, para além de sua obra escrita, o
mantinha como um conversador insuperável, contador de estórias, prosador
irresistível, o que certamente salvou-o da solidão absoluta, no epílogo de sua
vida, acompanhando-o até em seu leito de morte [67].
“De profundis” é uma súplica
ilimitada, uma espécie de expurgo que, por falta de um corte conclusivo, ato
decidido, faz retroceder o longo tempo de compreender para o instante de ver -
e então se torna inevitável repetir e re–vi-ver a mesma e nefasta experiência
Wilde acaba deixando o que foi dito tão nítida e radicalmente no levante do recalque, no esquecimento; tudo que diz não, tudo que diz basta é novamente recalcado. Se com a carta, de algum modo intentava realizar uma mutação da posição subjetiva, é como se estivera escrevendo na água, ou pregando ao vento. – Finaliza a Epistola com o perdão acostumado de quem sempre cedia e a resignação frente à beleza da dor. Encarou como honrosa dignidade deixar-se cair na humildade orgulhosa de quem optou até o fim por ser vítima da lei moral que repudiava, e pelo comando férreo do gozo trágico, apesar de encobrir-se e sustentar-se em comédias.
“Tenho um dever para comigo mesmo
que é divertir-me assustadoramente. Não felicidade. Acima de tudo, sem
felicidade. Prazer! Deve-se sempre aspirar ao mais trágico”[69].
Referências bibliográficas:
Ellmann,
Richard, “Oscar Wilde”, Companhia das Letras, S.P., 1988.
Wilde, Oscar, Obra completa,
editora Nova Aguilar, R.J., 1980.
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[1] “Havia-te eu
dito antes uma infinidade de vezes que ias ser a perdição de minha vida e isto
te fazia rir sempre”. P. 1384.
[2]
“(...)
eram deliciosamente sugestivos e estimulantes (...) O perigo constituía metade
do prazer. Era como embriagar-se na companhia de panteras: o próprio perigo era
a verdadeira embriaguez”. P.1415.
[3] Wilde, O., citado por Ellmann, R., p. 343.
[4]
“Era-me
impossível apartar-te de minha vida; tinha-o tentado em várias ocasiões (...)
com a esperança de livrar-me de ti; mas tudo fora inútil. E, não obstante, eras
o único que podias ter feito algo de eficaz; em tuas mãos estava a solução da
questão”. P. 1370.
[5]
“(...)
e assim tive de pagar diariamente todas as pequenas despesas que fazias. Isto só
poderia fazê-lo um homem que fosse de uma bondade de coração realmente única ou
de uma estupidez ilimitada; em mim se uniam, desgraçadamente, as duas
coisas”. P. 1424.
[6]
“Isto
trouxe como conseqüência imediata que tuas pretensões, tuas ânsias de dominação
e tuas acabrunhantes exigências aumentassem até o absurdo. O mais mísero de
teus impulsos, o mais baixo de teus apetites e a mais abjeta de tuas paixões
transformaram-se para ti em leis que deviam reger sempre a vida dos demais e às
quais tinham que ser sacrificadas fatalmente, sem o menor escrúpulo”. P.1349.
[7]
“(...)
tua mãe terá de deplorar alguma vez o ter tentado descarregar sobre outra
pessoa sua graves responsabilidades, sobre outra pessoa que já devia suportar
uma carga enormemente pesada (...) Se eu tive toda a máxima indulgência com
teus caprichos, teus arrebatamentos e teus escândalos, deve ter tido ela a
mesma indulgência”. P. 1422.
[8]
“De
todas as numerosas pessoas que cruzavam minha vida foste a única sobre quem não
podia eu de modo algum e em nenhum sentido influir (...)Essa teoria da
influência de um homem sobre um rapaz pode ser engraçada até chegar a meu
conhecimento, porque depois é grotesca”. P.1423/4.
[9]
“(...)
disse-te que me dava perfeitamente conta de que vos ia servir unicamente de
instrumento em vossa contenda e de que, por estar colocado entre os dois,
sairia sempre perdendo”. P.1384.
[10]
“Naturalmente,
uma vez postas em movimento as forças da sociedade, voltou-se esta contra mim e
disse-me: ‘Tens vivido durante todo este tempo desafiando minhas leis e agora
recorres a elas para que te protejam. Ser-te-ão rigorosamente aplicadas. Terás
de submeter-te às leis que invocaste.’ O resultado é que estou na prisão”. P. 1415.
[11] “Forçaste-me a entabular um processo, porque sabias perfeitamente que a ti nunca atacaria teu pai, nem em tua pessoa nem em tua vida, e que eu vos defenderia a ti e à tua vida até o final, lançando sobre meus ombros tudo quanto quisesses carregar sobre eles”. P.1422.
[12] “(...)
Depois de teres lido esta carta, verás a explicação psicológica de uma ordem de
conduta que, de fora, parece uma mistura de idiotice absoluta e de vulgar
fanfarronada”. Wilde, O., em carta a Ross,
p. 1339.
[13] Wilde, O., citado por Ellmann, R., p. 486. “Diz-se que
por trás da dor há sempre dor. Teria sido mais sensato ainda dizer que por trás
da dor há sempre uma alma”. P. 1414.
[14]
Ellmann,
R., p.468.
[15]
“Disse-te
muitas vezes – Lembra-te? – quanto me desagradava que visses em mim um homem
‘útil’, sabendo-se que o artista e também a arte, na sua mais íntima essência,
devem carecer por completo de utilidade”.
P. 1424.
[16]
“(...)
durante o tempo em que estivemos juntos, não escrevi uma única linha (...)
minha vida, enquanto estiveste a meu lado foi inteiramente estéril, nada
criadora”. P. 1345.
[17]
“A
exemplo do querido São Francisco de Assis, casei-me com a pobreza; no meu caso,
porém, o casamento não é um sucesso; odeio a noiva que me foi dada”. Wilde, O.,
citado por Ellmann, R., p.486.
[18]
“Tudo
tem de brotar da gente, espontaneamente. E torna-se por completo inútil querer
dizer a alguém uma coisa que nem sente, nem pode compreender”. P. 1371.
[19] “(...) pois essa obra, assim achava, em certa medida o reconciliaria com o mundo”. Ellmann, R., p. 499.
[20]
“Deves
ler esta carta até o final, ainda que cada palavra tenha de ser para ti como o
cautério e o bisturi do cirurgião que queima ou sangra as carnes delicadas”. P.
1344.
[21]
“Sabias
muito bem que te era suficiente provocar um escândalo para impor tua caprichosa
vontade e por isso era muito natural que talvez inconscientemente, não duvido,
tornasses mais aguda a violência até o inverossímil (...) quiseste possuir, na
cegueira do teu desejo insaciável, o meu ser inteiro. Fizeste dele sua presa.
Foi este o momento mais crítico de minha vida e de um aspecto mais trágico”. P.
1349.
[22]
“Deveria
ter proibido tua entrada em minha casa e em meus aposentos. Censuro-me sem
reservas pela minha debilidade. Isso não foi mais que uma debilidade (...) no
caso de um artista, a debilidade é nada menos que um crime, quando essa
debilidade é a que paralisa a imaginação”. P. 1346.
[23]
“Possuía
gênio, um nome distinto, uma elevada posição social, brilho e audácia
intelectual”. P.1388.
[24]
“O
que parecia ao mundo e a mim mesmo meu futuro, perdi-o irreparavelmente, quando
me deixei arrastar pela tentação de empreender uma ação judicial contra teu
pai; havia-o perdido, posso mesmo afirmar, em realidade, muito antes disso...”
p. 1347.
[25]
“Necessito
dizer a mim mesmo que tenho a culpa de tudo, que ninguém se aniquila senão por
sua própria vontade (...) Essa acusação cruel atiro-a sem piedade sobre minha
conduta”. P.1388.
[26]
“Na
realidade, tudo isso está simbolizado e previsto em meus livros (...) Não teria
podido ser de outra maneira, porque em cada momento de nossa vida é a gente
aquilo que vai ser, e igualmente o que se é, já se foi”. P.1398/9.
[27] “Cri que a
vida era uma brilhante comédia e que tu serias um de seus encantadores
personagens. Descobri que era uma tragédia revoltante e repulsiva e que na
ocasião sinistra da grande catástrofe, sinistra na concentração de objetivo e
em sua intensidade de reduzida vontade, foras tu mesmo despojado dessa máscara
de alegria e de prazer pela qual tu, da mesma forma que eu, tínhamos sido
seduzidos e perdidos”. P.1366.
[28] “Divertia-me
em ser um flâneur, um dândi, um homem
da moda. Rodeei-me de pessoas de mentalidade grosseira e malgastei meu talento.
Às vezes o esperdiçar uma juventude eterna produzia em mim um estranho gozo. Cansado
das alturas, baixei ao mais profundo em busca de novas sensações. O desejo foi,
afinal, uma enfermidade e uma loucura. Chegaram a não importar-me as vidas dos
outros; tomava o prazer onde o achava e continuava depois meu caminho”. P.1389.
[29] “(...) esse
mundo irreal da arte no qual antes fui rei e o teria continuado sendo, se não
me tivesse deixado aprisionar por esse outro mundo real e baixo, de paixões
cruéis e limitadas, de um gosto torpe, de desejos sem limites e de apetites
desaforados”. P. 1385.
[30] “Procurei
fugir a todo sofrimento e amargura. Como odiava a dor, resolvi ignorá-la
enquanto me fosse possível, tratá-la
como algo imperfeito, distante do meu
ambiente. Não lhe concedi o menor resquício em minha filosofia”. P. 1395. “(...) não há verdade comparável com a dor e
há momentos em que penso que a dor é a única verdade possível (...) Há na dor
uma intensa e extraordinária realidade”. P. 1396.
[31] “O
sofrimento, por curioso que isto possa parecer-te, é o meio pelo qual
existimos, porque é o único graças ao qual temos consciência de existir; e a
recordação do sofrimento no passado nos é necessária como garantia e evidência
de nossa contínua identidade”. P.1356.
[32] “Dante
coloca no inferno aqueles que vivem
voluntariamente na tristeza (...) Tampouco podia compreender como Dante que
disse que ‘a dor nos une a Deus’ pudesse ser tão duro para com os enamorados da
melancolia (...) Não pude imaginar então que chegaria um dia em que isto se
convertesse na grande tentação de minha vida”. P. 1394.
[33] “O ódio – e
isto tens de apreendê-lo ainda – é, dum ponto de vista intelectual,
simplesmente negativo. E para o coração é uma das formas de atrofia, de
conseqüências mortais, mas não somente para a gente mesmo (...) Compreendes
agora o que é o ódio e como cega uma pessoa? Reconheces agora que, quando digo
que o ódio é uma atrofia funesta e não só para aquele que o sente, defino de um
modo científico uma verdade de tipo psicológico?”. P.1372.
[34] “Seu ódio contra
ti estava em teu pai tão arraigado como o teu contra ele, e eu era, entre vós
dois, algo assim como o escudo que tanto serve para o ataque como para a
defesa”. P. 1369.
[35] “(...) Não
é realmente uma vida nova, mas a continuação por progresso e evolução de minha
vida anterior”. P. 1398.
[36] “É algo que
só se pode alcançar, renunciando a tudo quanto se possui e somente quando
perdemos tudo, damo-nos conta de que, por fim, possuímos uma só coisa”. P.1390.
[37] “Sem dúvida
alguma o lugar de Cristo se acha entre os poetas. Seu conceito de humanidade
provinha da imaginação, uma vez que somente esta é capaz de compreendê-la”.
P.1400.
[38] “Para
compreender a realidade da alma, é preciso que nos desprendamos de todas as
paixões estranhas, de toda a cultura adquirida, de todos os bens exteriores,
quer sejam bons ou maus”. P. 1402.
[39] “Cristo não
suportava os tristes sistemas mecânicos inanimados, que consideram os homens
como objetos, e a todos tratam assim; para Ele não existiam leis, mas
simplesmente exceções”. P.1408.
[40] “Os homens
cujo desejo consiste unicamente em realizarem-se a si mesmos, não sabem nunca
aonde vão. Nem podem sabê-lo. Em certo sentido da palavra é necessário (...)
conhecer-se a si mesmo (...) mas reconhecer que a alma humana é desconhecida é
a suprema realização da sabedoria”. P. 1411.
[41] “O momento
do arrependimento é o da iniciação. Mais ainda: é o momento mediante o qual
alguém pode alterar seu passado”.P.1410.
[42] “Não teve o
propósito de transformar um ladrão interessante em um homem honrado e
aborrecido”. P.1410/11.
[43] “Talvez
saia daqui com algo que antes não possuía (...) Mas assim como a resolução de
converter-me em um homem melhor é um ato de hipocrisia anticientífica, o chegar
a ser mais profundamente humano é o privilégio dos que sofreram”. P.1412.
[44] “(...)
talvez o que ainda me reste de beleza de vida esteja contido em algum momento
de abandono, de rebaixamento e humilhação”. P. 1414.
[45] “Em minha
tragédia tudo foi espantoso, mesquinho, repugnante e desprovido de Estilo.
Nosso próprio uniforme nos torna grotescos. Somos bufões da dor. Palhaços com o
coração partido. Estamos especialmente indicados para excitar o sentido
humorístico”. P.1414.
[46] “(...) o
mais terrível da época atual é que a tragédia se veste com roupas de comédia,
de modo que as grandes realidades parecem triviais, grotescas ou carentes de
estilo. Isto é completamente certo a respeito da época moderna. Foi
provavelmente sempre certo na vida real”. P. 1413.
[47] “(...) por
trás da dor só se encontra mesmo a dor. O sofrimento, contrariamente ao prazer,
não usa máscara”. P. 1396.
[48] “Eras meu
inimigo, um inimigo como não teve ninguém jamais. Havia-te consagrado minha
vida e para satisfazer as mais vis e desprezíveis paixões humanas – o ódio, a vaidade
e a gula – atiraste-a longe. Em menos de três anos me arruinaste por completo sob todos os
aspectos. No meu próprio interesse já não podia fazer outra coisa que não fosse
querer-te”. P. 1374.
[49] “Pudeste,
quando menos, imaginar que tragédia mais tremenda foi para mim encontrar em meu
caminho tua família?” p.1419.
[50] “Censuro-me
por ter permitido que uma amizade não intelectual (...) dominasse por completo
minha vida”. P. 1344.
[51] “Eras o
tipo perfeito de uma espécie moderníssima (...) Tua prodigalidade desmedida era
um verdadeiro crime”. P.1427.
[52] “Ele (...)
não podia suportar os tolos (...) pessoas que estão repletas de opiniões e não
compreendem uma sequer; tipo genuinamente moderno, definido já por Cristo”.
P.1408.
[53] “... Não
compreendes agora que tua falta de imaginação foi o único defeito
verdadeiramente fatal de teu caráter?” P. 1370, e também nas págs. 1346, 1360,
1374, 1388, 1414, 1419,1433.
[54] “Lembra-te
também tenho ainda de conhecer-te. Ou talvez tenhamos de conhecer-nos
mutuamente?” P. 1437.
[55] O. Wilde, sobre o suicídio: “Nunca pensei seriamente
nisso como uma saída. Achava que devia esvaziar o cálice de minha paixão até a
última gota”. Ellmann, R., p. 480, 497.
[56] “Às vezes
tenho a impressão de que tu mesmo não foste mais que um fantoche movido por uma
mão secreta e invisível para conduzir uns sucessos terríveis a um final
terrível. Mas até os próprios fantoches têm paixões. Criarão eles um novo tema
naquele em que são apresentados e, para satisfazer qualquer capricho ou apetite
pessoal, envolverão em vicissitudes o final determinado. Ser completamente
livre e estar ao mesmo tempo inteiramente dominado pela lei é o eterno paradoxo
da vida humana, que realizamos a cada instante, e aí está – como penso amiúde –
a única explicação possível de tua natureza”. P. 1364 /5.
[57] “(...) se
leres esta carta com cuidado, como deves, ver-te-ás diante de ti mesmo, verás
diante de ti tua vida”. P.1426.
[58] “A moral
não me serve para nada. Sou por natureza, oposto a toda lei, e estou feito para
as exceções. Mas ao passo que não vejo mal algum em meus atos, dou-me conta de
que não posso dizer o mesmo a respeito de suas conseqüências e está bem que
haja aprendido isto”. P. 1391.
[59] “Um patriota aprisionado por amar seu país, ama seu país, um poeta na prisão por amar rapazes, ama rapaz