OSCAR WILDE NO TEMPO DE COMPREENDER O FANTASMA

Epistola in Carcere et Vinculis: De Profundis

 

Bárbara Maria Brandão Guatimosim

 

“(...) como conseqüência de ter-me deixado colher no laço (...) me encontro na mais espessa lama, situado entre os célebres Gilles de Retz e  Marquês de Sade”.

Oscar Wilde

 

“Das profundezas do abismo, clamo a  vós, Senhor! Senhor, escutai a minha voz.

Estejam vossos ouvidos atentos à  voz de minha súplica”.

De Profundis, Salmo 129

 

Aos quarenta e um anos, já tendo escrito praticamente toda a sua obra, composta de contos,ensaios, poesias, peças teatrais e um romance, o escritor irlandês Oscar Wilde, inglês por adoção, se vê comprometido em sua vida pessoal e artística pelo encontro do que foi para ele uma “funesta amizade”[1]. Em Londres, já casado e com dois filhos, mantinha relações com outros rapazes, que acolhia generosamente em um “banquete de panteras”[2]. Eram em sua maioria prostitutos, que a era vitoriana com suas leis que condenavam o homossexualismo, tornara chantagistas em potencial. Com alguns destes rapazes não buscava apenas divertimento. “Casei-me três vezes em minha vida, uma com uma mulher, duas com homens!” [3] Seu último e fatal casamento foi com um jovem de pouco mais de vinte anos, Lord Alfred Douglas, do qual tentou se separar várias vezes[4] e que já transitava com amigos homossexuais pouco confiáveis.O belo Douglas, aspirante à poeta, passou a viver perdulariamente[5] às custas de  um Wilde que sempre cedia[6], da mãe  débil e complacente[7], e às turras com o pai, J. Queensberry, que fazia do estandarte do moralismo uma autopromoção.

 

 Douglas não era muito discreto em sua amizade com Oscar e com isto provocava Queensberry que passou a insultar o escritor já famoso acusando-o de sodomita e corruptor de jovens, ou mais precisamente, do filho[8]. Incitado em extremo por Lord Alfred, Wilde resolveu comprar a disputa entre filho e pai processando o último por difamação[9]. Oscar, que se dizia filho típico de seu século, não contou com a violência da hipocrisia da sociedade inglesa que tanto criticava, mas da qual também usufruía. Wilde com sua vida dupla, convencional e clandestina, recorreu à lei moral e recebeu sua resposta invertida[10]. O pai acusado em nome da moral tornou-se acusador do imoral, e por meio de estratagemas escusos conseguiu condenar Wilde à pena máxima de dois anos na prisão com trabalhos forçados, depois de um longo processo do qual se recusou a fugir por um misto de honra, orgulho, prepotência, impotência e sacrifício[11].

 

 Wilde passou em sua carreira rapidamente da fama incontestável à infâmia e falência absolutas. Na prisão sofria horrivelmente, com direito a raras visitas e restritos contatos por carta com poucos amigos. Mas de A. Douglas só lhe veio o silêncio e notícias que lhe indignavam. Foi nos últimos meses do cumprimento de sua pena na prisão de Reading, já com acesso a alguns livros, papel e tinta antes negados que, diante do silêncio do amante e no isolamento, redigiu talvez a maior carta de amor conhecida na literatura, destinada ao  “Querido Bosie”, A.Douglas. A Epistola, segundo Wilde, não defende sua conduta: explica-a. [12] Mas não só: lamenta-se, acusa, interpreta, busca redenção no sofrimento, na dor, no amor, no perdão, na humildade, em Cristo e esperança na “Vita Nuova” que se prescreve, fazendo o levantamento das causas e da extensão de sua ruína. Insistia em dizer que a prisão o havia modificado profundamente “porque lá encontrei minha alma” [13].

 

Posto em liberdade tentou ingressar em um monastério de jesuítas para um retiro, mas isso lhe foi recusado. Talvez recluso, se sentisse mais liberto. Pois sua libertação parece tê-lo deixado ainda mais prisioneiro. Divorciado de sua mulher Constance Lloyd e proibido de ver os dois filhos retomou sua vida com Douglas, seu “porto seguro” [14], e foi por ele novamente abandonado reencenando a mesma situação anterior, já que não havia dinheiro que os sustentassem[15]. Sua única obra posterior ao tempo do cárcere foi a “Balada da Prisão de Reading”, e alguns artigos jornalísticos criticando o sistema penitenciário britânico que, na época, praticamente se igualava à  pena de morte. Ainda lhe vinham boas idéias, mas não queria, não podia mais escrever[16].

 

A condição de viúvo reservou-lhe uma pensão modesta, sempre insuficiente para seus gastos [17].  Passou o final da vida, bebendo, esmolando, divertindo-se com rapazes, e em conversações com alguns poucos amigos, admiradores e apiedados que o sustentavam em todos os sentidos. Mas  sofria com a indiferença e desprezo da maioria e de muitos que sua generosidade havia regalado nos tempos de glória e fortuna. Com isso,  passou a evitar também o convívio, mesmo dos que lhe eram simpáticos. Morreu em 1900, na miséria, cercado dos contados amigos mais chegados e de Robert Ross que nunca o abandonou e que foi seu executor literário. Quando saiu da prisão, a Epistola, ou “De profundis” como Ross a intitulou, foi confiada a este com a recomendação de uma cópia  a Douglas. Não se sabe se este a leu ou não na ocasião; de qualquer maneira, isto provavelmente não faria diferença[18]. Antes de morrer, Wilde manifestou o desejo de que a  Epistola fosse um dia publicada [19].  Uma primeira versão parcial da carta veio a público e, tempos depois, foi integralmente publicada.

 

É desta carta impressionante, dramática, desigual, contraditória, entremeada de reflexões filosóficas, religiosas e artísticas,  atormentada como o complexo remetente, que faço uma leitura a partir da escuta psicanalítica, acompanhando, no testemunho que traz, algumas de suas linhas temáticas, com seus circuitos, suas repetições e seu desfecho. As muitas citações selecionadas e numeradas no corpo e no final deste texto, extratos da voz escrita de Wilde, têm o objetivo de fazer a carta falar por si mesma, dando suporte vivo ao que vou pontuando.

 

A “Epistola in Cárcere et Vinculis”, como o autor a nomeou, desde seu início, não promete uma agradável leitura. É uma “carta terrível”. Nesta  missiva Wilde recompõe um pouco de sua vida de glória e vai acompanhando cirurgicamente[20] todos os passos, por vezes em detalhes microscópicos, tanto factuais como subjetivos, que o levaram à ruína. Não poupa ninguém, a começar por Douglas[21] e por ele mesmo[22]. Percebe que o processo judicial que o levou a perder tudo: família, fortuna, amigos, reconhecimento social, saúde, sua arte, seu nome[23], enfim, qualquer possibilidade de futuro[24], não foi o causador de sua tragédia. Apesar de culpar o Destino, os Deuses e Douglas, é perfeitamente lúcido sobre o quanto escolheu a fatalidade[25]. Reconhece a evidência do quanto algumas de suas obras anteciparam e retrataram seu percurso[26]. Viu claramente quando e como poderia ter evitado o pior e como se deixou enredar nas armadilhas da comédia[27], da superficialidade e frivolidade[28]; teve consciência de como servia como instrumento de gozo aos apetites narcísicos insaciáveis que o rodeavam[29]. Descobre a certeza[30] na dor recorrente, como mantenedora da identidade[31]; mas alertado está para não fazer da dor, um bem[32]. Recusa terminantemente o ódio e o ressentimento como destilações da amargura[33], pois se dá conta de que foi nas malhas do ódio que se deixou apanhar[34]. Afirma, não a revolta, mas o segredo da humildade, que “consiste em aceitar todas as experiências”, como a única revelação digna a se extrair da experiência de dor. Preconizava o amor  como o único dom que torna possível a compreensão e o perdão. Descobre assim, na Vita Nuova[35] de Dante, não um corte total com o passado, mas a feliz vitalidade no desprendimento[36], para alcançar a última realização da vida artística.

 

Não a religião, mas a vida de Cristo emerge, em certo ponto no texto, análoga à verdadeira vida do artista. A partir disso, Cristo é figurado de maneira nada ortodoxa, como o maior poeta romântico do esteticismo, ao qual Wilde se identifica idealmente, um tanto à sua imagem e semelhança[37]. Defende que os rituais litúrgicos deveriam ser uma espécie de celebração teatral.Cristo é então protagonista, não do altruísmo, mas do supremo desapego individualista, porque visa à alma do homem[38]; e a de uns vale como a de outros, porque são diferentes[39]. Defendendo a errância[40], despreza os homens para quem a vida é uma sagaz especulação, um cálculo dos caminhos e meios, e  que, onde quer que vão, vestem a máscara do que programaram; e o castigo é que terão de usá-las. Wilde entende que Cristo amava os pecadores, próximos da perfeição, porque só estes podiam se arrepender[41]. Compreende que o desejo primordial de Cristo não era reformar os homens, tampouco aliviar o sofrimento[42]. Sem acreditar em reformas morais ou teológicas, os passos da paixão de Wilde, dá-lhe o direito adquirido de compartilhar da dor[43], dor que aqui, infiel a Dante, toma como um belo bem[44] em uma convicta lealdade catexial. Quer que a dor se introduza em sua obra a advir, não imitando a realidade, nem da forma vulgar que experimentou[45], mas com uma certa qualidade estética[46]. Porém, este projeto não foi realizado.

 

Wilde prossegue na Epistola destrinchando suas ilusões, máscaras[47] e equívocos, o principal deles indubitavelmente, o deixar-se levar pelo gozo, com a parceria perfeita para isto que encontrou em A. Douglas[48] e seus familiares[49]. Com tudo isso, sua tragédia não é grega. O amor que se queria acreditar e se mostrar grego, exibiu-se como uma realização perversa do fantasma, revelando seu rosto real na ruína que trouxe[50]. Wilde, o helenista, percebe que estava dominado, não apenas por um rapaz voluntarioso, mas por um estilo moderno[51], por um mestre perverso; aquele que exige o gozo e o consumo rápido, que, independente da época, é sempre “moderno”[52] - por sobrepor o gozo ao desejo, este sempre historicamente causado, por sua inconseqüência, sua indiferença ao outro, e destruição dos laços sociais – Esta máquina de gozar que assola Wilde e que este lastima reiteradamente em Douglas é, por definição, absolutamente destituída de imaginação e carece por completo de poesia[53]. O escritor Wilde expressa de forma precisa e repetidamente que, não é esse, mas um Outro gozo que atravessa sua arte.

 

Tudo o que se seguiu na vida de Wilde sobrevém de uma fixação da qual não consegue, e em grande medida não quer, decididamente, livrar-se. Não só retomou seu vínculo com Douglas depois da prisão como a própria carta vaticinava[54], mas talvez por saber mais ainda do gozo a partir da Epistola, mergulhou fundo no sorvedouro fantasmático buscando sorver a Vida até a sua última gota [55].

 

Ao longo de toda a carta, onde lemos o discurso histérico se exercendo em plena súplica, produzindo saber, fazendo ciência, acompanhamos também a gravidade da sedução do fantasma que se faz, ao final, inexorável, obstruindo a saída.  Certamente a bela imagem de Douglas era só uma tela imantada, eleita dentre todas, que encobria o fantasma masoquista e mortífero[56]. Pois o que a pintura feita por Wilde espelha e retrata[57] era o que Douglas implicava enquanto figura obscena  e imperativa do gozo que não quer saber do impossível; ou sabe, mas mesmo assim... Não é surpresa então que ao pintar a imagem de Douglas encontre as cores lúgubres da mesma figura em si mesmo. Eis como Wilde fabula o encontro com sua alma na prisão.

 

“Um homem deparou com um ser, que dele escondeu o rosto, e disse: ‘Vou obrigá-lo a mostrar seu rosto’. O ser fugiu. Ao ir em seu encalço, perdeu-o de vista, mas sua vida continuou. Por fim seu prazer levou-o a uma sala comprida, onde mesas tinham sido postas para muitas pessoas, e, em um espelho, viu o ser que perseguira na juventude. ‘Desta vez você não haverá de me escapar’, disse, mas o ser não só não tentou fugir como também não escondeu o rosto. ‘Olhe’, gritou o ser, ‘e agora saberá que não mais poderemos nos ver, pois este é o rosto de sua própria alma, e ela é horrível’”. (Wilde, citado por Ellmann, R.., p 487.)

 

Assim como o amado, não foi o homossexualismo que condenou Wilde e do qual ele nunca abriu mão, se lamentou[58] ou questionou.[59] Mesmo porque o homossexualismo já fervilhava na casta e sóbria Inglaterra de então. Era tolerado, conquanto não se o revelasse. Não foi o sexo, mas um amor devastador que o aprisionou. Este “Amor que não ousa dizer seu nome” , como Douglas o chama em seu poema “Dois Amores”, esconde menos a opção sexual amorosa que uma outra terrível paixão oculta: aquela que leva à morte. E Wilde  responde repetindo em eco nos ditos e escritos últimos: “Porque cada um de nós mata o que ama, mas nem todos hão de morrer” [60] (53).

É provavelmente com a lúcida visão desse cenário trágico que Wilde, na carta, se identifica ao débil Hamlet de Shakespeare, ao sentir a missão que lhe vem  do fantasma como um fardo insuportável para ele: um poeta, um sonhador que se arrasta para a ação, sem saber o que fazer (54). Compara Douglas aos companheiros de Hamlet, os imortais tartufianos Rosencratz  e Guildenstern (55) e à doce Ofélia, que roçam o segredo trágico do príncipe, mas dele nada sabem, e nada adianta revelar-lhes aquilo que não podem compreender (56).

 

Todavia a carta se mantém do início ao fim, mesclando variações temáticas, como uma grande súplica sinfônica ao Amor; Amor que, com toda a estupidez, sem nada compreender, sabe do gozo: “por que não me escreveste?”, “por que não me escreves?” Pergunta que o autor, por ele mesmo, vai respondendo insistentemente, explorando de modo desesperado os incansáveis matizes de uma “compreensão”, tão incessante, que se torna, no texto, inumerável. Uma compreensão que se diz e se revela por demais “psicológica” para o que é preciso “aprender” e “ensinar”[61] a Douglas[62]; isto é: o impossível, dom da castração[63]. Evidentemente, o fato de insistir por escrito nessa compreensão, em nada mudou a vida do escritor, nem lhe reservou um futuro diverso[64].

 

Wilde passou seus últimos anos de Vida, abandonando-se a ela [65], fazendo comédia da tragédia  humana, navegando entre uma e outra, sedando-se com álcool e humor quando a dor de sua desgraça mostrava suas garras [66]. Sob o nome de Sebastian Melmoth, que adotou ao sair da prisão, passou seus últimos meses exilado em Paris; mas, como disfarce, era completamente inútil; Wilde com sua estatura gigantesca dizia ser tão conhecido como a torre Eiffel. Teve como companheiro inseparável seu estilo inconfundível, uma escritura composta de ironia, humor e poesia que, para além de sua obra escrita, o mantinha como um conversador insuperável, contador de estórias, prosador irresistível, o que certamente salvou-o da solidão absoluta, no epílogo de sua vida, acompanhando-o até em seu leito de morte [67].

 

“De profundis” é uma súplica ilimitada, uma espécie de expurgo que, por falta de um corte conclusivo, ato decidido, faz retroceder o longo tempo de compreender para o instante de ver - e então se torna inevitável repetir e re–vi-ver a mesma e nefasta experiência em looping. O compreender deixado à deriva, só pode degradar-se na submissão e subserviência ao que foi revelado.O tempo de compreender só se legitima enquanto tal - real elaboração, construção - a partir da antecipação lógica que o momento de concluir exige como perda de gozo e aposta no desconhecido, abrindo as portas da cela fantasmática. No caso de Wilde, o resultado é que o prisioneiro não sai da prisão. Aliás, é essa certeza que ele antecipa como sentença  [68].

 

 Wilde acaba deixando o que foi dito tão nítida e radicalmente no levante do recalque, no esquecimento; tudo que diz não, tudo que diz basta é novamente recalcado. Se com a carta, de algum modo intentava realizar uma mutação da posição subjetiva, é como se estivera escrevendo na água, ou pregando ao vento. – Finaliza a Epistola com o perdão acostumado de quem sempre cedia e a resignação frente à beleza da dor. Encarou como honrosa dignidade deixar-se cair na humildade orgulhosa de quem optou até o fim por ser vítima da lei moral que repudiava, e pelo comando férreo do gozo trágico, apesar de encobrir-se e sustentar-se em comédias.

 

“Tenho um dever para comigo mesmo que é divertir-me assustadoramente. Não felicidade. Acima de tudo, sem felicidade. Prazer! Deve-se sempre aspirar ao mais trágico”[69].

 

 

 

 

Referências bibliográficas:

 

Ellmann, Richard, “Oscar Wilde”, Companhia das Letras, S.P., 1988.

Wilde, Oscar, Obra completa, editora Nova Aguilar, R.J., 1980.

 

 

 

Membro da Escola de Psicanálise do Campo Lacaniano - Fórum BH.

 

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SUMARIO

 

 



[1] “Havia-te eu dito antes uma infinidade de vezes que ias ser a perdição de minha vida e isto te fazia rir sempre”. P. 1384.

 

[2] “(...) eram deliciosamente sugestivos e estimulantes (...) O perigo constituía metade do prazer. Era como embriagar-se na companhia de panteras: o próprio perigo era a verdadeira embriaguez”. P.1415.

 

[3] Wilde, O., citado por Ellmann, R., p. 343.

[4] “Era-me impossível apartar-te de minha vida; tinha-o tentado em várias ocasiões (...) com a esperança de livrar-me de ti; mas tudo fora inútil. E, não obstante, eras o único que podias ter feito algo de eficaz; em tuas mãos estava a solução da questão”. P. 1370.

 

[5] “(...) e assim tive de pagar diariamente todas as pequenas despesas que fazias. Isto só poderia fazê-lo um homem que fosse de uma bondade de coração realmente única ou de uma estupidez ilimitada; em mim se uniam, desgraçadamente, as duas coisas”.  P. 1424.

 

[6] “Isto trouxe como conseqüência imediata que tuas pretensões, tuas ânsias de dominação e tuas acabrunhantes exigências aumentassem até o absurdo. O mais mísero de teus impulsos, o mais baixo de teus apetites e a mais abjeta de tuas paixões transformaram-se para ti em leis que deviam reger sempre a vida dos demais e às quais tinham que ser sacrificadas fatalmente, sem o menor escrúpulo”.  P.1349.

 

[7] “(...) tua mãe terá de deplorar alguma vez o ter tentado descarregar sobre outra pessoa sua graves responsabilidades, sobre outra pessoa que já devia suportar uma carga enormemente pesada (...) Se eu tive toda a máxima indulgência com teus caprichos, teus arrebatamentos e teus escândalos, deve ter tido ela a mesma indulgência”. P. 1422.

 

[8] “De todas as numerosas pessoas que cruzavam minha vida foste a única sobre quem não podia eu de modo algum e em nenhum sentido influir (...)Essa teoria da influência de um homem sobre um rapaz pode ser engraçada até chegar a meu conhecimento, porque depois é grotesca”. P.1423/4.

 

[9] “(...) disse-te que me dava perfeitamente conta de que vos ia servir unicamente de instrumento em vossa contenda e de que, por estar colocado entre os dois, sairia sempre perdendo”.  P.1384.

 

[10] “Naturalmente, uma vez postas em movimento as forças da sociedade, voltou-se esta contra mim e disse-me: ‘Tens vivido durante todo este tempo desafiando minhas leis e agora recorres a elas para que te protejam. Ser-te-ão rigorosamente aplicadas. Terás de submeter-te às leis que invocaste.’ O resultado é que estou na prisão”.  P. 1415.

 

[11] “Forçaste-me a entabular um processo, porque sabias perfeitamente que a ti nunca atacaria teu pai, nem em tua pessoa nem em tua vida, e que eu vos defenderia a ti e à tua vida até o final, lançando sobre meus ombros tudo quanto quisesses carregar sobre eles”. P.1422.

 

[12] “(...) Depois de teres lido esta carta, verás a explicação psicológica de uma ordem de conduta que, de fora, parece uma mistura de idiotice absoluta e de vulgar fanfarronada”. Wilde, O., em carta a Ross,  p. 1339.

[13] Wilde, O., citado por Ellmann, R., p. 486. “Diz-se que por trás da dor há sempre dor. Teria sido mais sensato ainda dizer que por trás da dor há sempre uma alma”. P. 1414.

 

[14] Ellmann, R., p.468.

 

[15] “Disse-te muitas vezes – Lembra-te? – quanto me desagradava que visses em mim um homem ‘útil’, sabendo-se que o artista e também a arte, na sua mais íntima essência, devem carecer por completo de utilidade”. P. 1424.

 

[16] “(...) durante o tempo em que estivemos juntos, não escrevi uma única linha (...) minha vida, enquanto estiveste a meu lado foi inteiramente estéril, nada criadora”. P. 1345.

 

[17] “A exemplo do querido São Francisco de Assis, casei-me com a pobreza; no meu caso, porém, o casamento não é um sucesso; odeio a noiva que me foi dada”. Wilde, O., citado por Ellmann, R., p.486.

[18] “Tudo tem de brotar da gente, espontaneamente. E torna-se por completo inútil querer dizer a alguém uma coisa que nem sente, nem pode compreender”. P. 1371.

 

[19] “(...) pois essa obra, assim achava, em certa medida o reconciliaria com o mundo”. Ellmann, R., p. 499.

 

[20] “Deves ler esta carta até o final, ainda que cada palavra tenha de ser para ti como o cautério e o bisturi do cirurgião que queima ou sangra as carnes delicadas”. P. 1344.

 

[21] “Sabias muito bem que te era suficiente provocar um escândalo para impor tua caprichosa vontade e por isso era muito natural que talvez inconscientemente, não duvido, tornasses mais aguda a violência até o inverossímil (...) quiseste possuir, na cegueira do teu desejo insaciável, o meu ser inteiro. Fizeste dele sua presa. Foi este o momento mais crítico de minha vida e de um aspecto mais trágico”. P. 1349.

 

[22] “Deveria ter proibido tua entrada em minha casa e em meus aposentos. Censuro-me sem reservas pela minha debilidade. Isso não foi mais que uma debilidade (...) no caso de um artista, a debilidade é nada menos que um crime, quando essa debilidade é a que paralisa a imaginação”. P. 1346.

 

[23] “Possuía gênio, um nome distinto, uma elevada posição social, brilho e audácia intelectual”. P.1388.

 

[24] “O que parecia ao mundo e a mim mesmo meu futuro, perdi-o irreparavelmente, quando me deixei arrastar pela tentação de empreender uma ação judicial contra teu pai; havia-o perdido, posso mesmo afirmar, em realidade, muito antes disso...” p. 1347.

 

[25] “Necessito dizer a mim mesmo que tenho a culpa de tudo, que ninguém se aniquila senão por sua própria vontade (...) Essa acusação cruel atiro-a sem piedade sobre minha conduta”. P.1388.

 

[26] “Na realidade, tudo isso está simbolizado e previsto em meus livros (...) Não teria podido ser de outra maneira, porque em cada momento de nossa vida é a gente aquilo que vai ser, e igualmente o que se é, já se foi”. P.1398/9.

 

[27] “Cri que a vida era uma brilhante comédia e que tu serias um de seus encantadores personagens. Descobri que era uma tragédia revoltante e repulsiva e que na ocasião sinistra da grande catástrofe, sinistra na concentração de objetivo e em sua intensidade de reduzida vontade, foras tu mesmo despojado dessa máscara de alegria e de prazer pela qual tu, da mesma forma que eu, tínhamos sido seduzidos e perdidos”. P.1366.

 

[28] “Divertia-me em ser um flâneur, um dândi, um homem da moda. Rodeei-me de pessoas de mentalidade grosseira e malgastei meu talento. Às vezes o esperdiçar uma juventude eterna produzia em mim um estranho gozo. Cansado das alturas, baixei ao mais profundo em busca de novas sensações. O desejo foi, afinal, uma enfermidade e uma loucura. Chegaram a não importar-me as vidas dos outros; tomava o prazer onde o achava e continuava depois meu caminho”. P.1389.

 

[29] “(...) esse mundo irreal da arte no qual antes fui rei e o teria continuado sendo, se não me tivesse deixado aprisionar por esse outro mundo real e baixo, de paixões cruéis e limitadas, de um gosto torpe, de desejos sem limites e de apetites desaforados”. P. 1385.

 

[30] “Procurei fugir a todo sofrimento e amargura. Como odiava a dor, resolvi ignorá-la enquanto me    fosse possível, tratá-la como  algo imperfeito, distante do meu ambiente. Não lhe concedi o menor resquício em minha filosofia”. P. 1395.  “(...) não há verdade comparável com a dor e há momentos em que penso que a dor é a única verdade possível (...) Há na dor uma intensa e extraordinária realidade”. P. 1396.

 

[31] “O sofrimento, por curioso que isto possa parecer-te, é o meio pelo qual existimos, porque é o único graças ao qual temos consciência de existir; e a recordação do sofrimento no passado nos é necessária como garantia e evidência de nossa contínua identidade”. P.1356.

 

[32] “Dante coloca no  inferno aqueles que vivem voluntariamente na tristeza (...) Tampouco podia compreender como Dante que disse que ‘a dor nos une a Deus’ pudesse ser tão duro para com os enamorados da melancolia (...) Não pude imaginar então que chegaria um dia em que isto se convertesse na grande tentação de minha vida”. P. 1394.

 

[33] “O ódio – e isto tens de apreendê-lo ainda – é, dum ponto de vista intelectual, simplesmente negativo. E para o coração é uma das formas de atrofia, de conseqüências mortais, mas não somente para a gente mesmo (...) Compreendes agora o que é o ódio e como cega uma pessoa? Reconheces agora que, quando digo que o ódio é uma atrofia funesta e não só para aquele que o sente, defino de um modo científico uma verdade de tipo psicológico?”. P.1372.

 

[34] “Seu ódio contra ti estava em teu pai tão arraigado como o teu contra ele, e eu era, entre vós dois, algo assim como o escudo que tanto serve para o ataque como para a defesa”. P. 1369.

 

[35] “(...) Não é realmente uma vida nova, mas a continuação por progresso e evolução de minha vida anterior”. P. 1398.

 

[36] “É algo que só se pode alcançar, renunciando a tudo quanto se possui e somente quando perdemos tudo, damo-nos conta de que, por fim, possuímos uma só coisa”. P.1390.

 

[37] “Sem dúvida alguma o lugar de Cristo se acha entre os poetas. Seu conceito de humanidade provinha da imaginação, uma vez que somente esta é capaz de compreendê-la”. P.1400.

 

[38] “Para compreender a realidade da alma, é preciso que nos desprendamos de todas as paixões estranhas, de toda a cultura adquirida, de todos os bens exteriores, quer sejam bons ou maus”. P. 1402.

 

[39] “Cristo não suportava os tristes sistemas mecânicos inanimados, que consideram os homens como objetos, e a todos tratam assim; para Ele não existiam leis, mas simplesmente exceções”. P.1408.

 

[40] “Os homens cujo desejo consiste unicamente em realizarem-se a si mesmos, não sabem nunca aonde vão. Nem podem sabê-lo. Em certo sentido da palavra é necessário (...) conhecer-se a si mesmo (...) mas reconhecer que a alma humana é desconhecida é a suprema realização da sabedoria”. P. 1411.

 

[41] “O momento do arrependimento é o da iniciação. Mais ainda: é o momento mediante o qual alguém pode alterar seu passado”.P.1410.

 

[42] “Não teve o propósito de transformar um ladrão interessante em um homem honrado e aborrecido”. P.1410/11.

 

[43] “Talvez saia daqui com algo que antes não possuía (...) Mas assim como a resolução de converter-me em um homem melhor é um ato de hipocrisia anticientífica, o chegar a ser mais profundamente humano é o privilégio dos que sofreram”. P.1412.

 

[44] “(...) talvez o que ainda me reste de beleza de vida esteja contido em algum momento de abandono, de rebaixamento e humilhação”. P. 1414.

 

[45] “Em minha tragédia tudo foi espantoso, mesquinho, repugnante e desprovido de Estilo. Nosso próprio uniforme nos torna grotescos. Somos bufões da dor. Palhaços com o coração partido. Estamos especialmente indicados para excitar o sentido humorístico”. P.1414.

 

[46] “(...) o mais terrível da época atual é que a tragédia se veste com roupas de comédia, de modo que as grandes realidades parecem triviais, grotescas ou carentes de estilo. Isto é completamente certo a respeito da época moderna. Foi provavelmente sempre certo na vida real”. P. 1413.

 

[47] “(...) por trás da dor só se encontra mesmo a dor. O sofrimento, contrariamente ao prazer, não usa máscara”. P. 1396.

 

[48] “Eras meu inimigo, um inimigo como não teve ninguém jamais. Havia-te consagrado minha vida e para satisfazer as mais vis e desprezíveis paixões humanas – o ódio, a vaidade e a gula – atiraste-a longe. Em menos de três anos  me arruinaste por completo sob todos os aspectos. No meu próprio interesse já não podia fazer outra coisa que não fosse querer-te”. P. 1374.

 

[49] “Pudeste, quando menos, imaginar que tragédia mais tremenda foi para mim encontrar em meu caminho tua família?” p.1419.

 

[50] “Censuro-me por ter permitido que uma amizade não intelectual (...) dominasse por completo minha vida”. P. 1344.

 

[51] “Eras o tipo perfeito de uma espécie moderníssima (...) Tua prodigalidade desmedida era um verdadeiro crime”. P.1427.

 

[52] “Ele (...) não podia suportar os tolos (...) pessoas que estão repletas de opiniões e não compreendem uma sequer; tipo genuinamente moderno, definido já por Cristo”. P.1408.

 

[53] “... Não compreendes agora que tua falta de imaginação foi o único defeito verdadeiramente fatal de teu caráter?” P. 1370, e também nas págs. 1346, 1360, 1374, 1388, 1414, 1419,1433.

 

[54] “Lembra-te também tenho ainda de conhecer-te. Ou talvez tenhamos de conhecer-nos mutuamente?” P. 1437.

 

[55] O. Wilde, sobre o suicídio: “Nunca pensei seriamente nisso como uma saída. Achava que devia esvaziar o cálice de minha paixão até a última gota”. Ellmann, R., p. 480, 497.

 

[56] “Às vezes tenho a impressão de que tu mesmo não foste mais que um fantoche movido por uma mão secreta e invisível para conduzir uns sucessos terríveis a um final terrível. Mas até os próprios fantoches têm paixões. Criarão eles um novo tema naquele em que são apresentados e, para satisfazer qualquer capricho ou apetite pessoal, envolverão em vicissitudes o final determinado. Ser completamente livre e estar ao mesmo tempo inteiramente dominado pela lei é o eterno paradoxo da vida humana, que realizamos a cada instante, e aí está – como penso amiúde – a única explicação possível de tua natureza”. P. 1364 /5.

 

[57] “(...) se leres esta carta com cuidado, como deves, ver-te-ás diante de ti mesmo, verás diante de ti tua vida”. P.1426.

 

[58] “A moral não me serve para nada. Sou por natureza, oposto a toda lei, e estou feito para as exceções. Mas ao passo que não vejo mal algum em meus atos, dou-me conta de que não posso dizer o mesmo a respeito de suas conseqüências e está bem que haja aprendido isto”. P. 1391.

 

[59] “Um patriota aprisionado por amar seu  país, ama seu país, um poeta na prisão por amar rapazes, ama rapaz